Venho
tentando já algum tempo realizar uma viagem de bicicleta pela Carretera Austral
no Chile. Nesse final de 2008 parecia que tudo ia dar certo e conseguiria
realizar meu sonho. Cheguei ao início de dezembro com o estresse me sacudindo.
Precisava descansar com urgência. Contratempos, minha bicicleta uma semana
antes não ficava pronta. Susi que iria comigo, também uma semana antes levou um
tombo de bicicleta. Passei o final de semana que antecedia a viagem debruçada
nas anotações, mapas, relatos e guias. Ruminei e decidi deixar o projeto do
pedal para o ano seguinte ou quando fosse pra rolar realmente. Necessitava
viajar sozinha. Precisava ficar longe de tudo e estar mais perto de mim.
Comecei a
correr atrás das coisas, passagens, preços, equipamentos e os detalhes da
viagem. Sei que quando se planeja antes mais barato fica. Eu realmente não
tinha condições de pensar nisso antes de dezembro. Decidi ir de ônibus já que
as passagens de avião em dezembro não cabiam no meu bolso.
A empresa
de ônibus Crucero Del Norte passa por Cambé e que vai até Buenos Aires seria
meu destino inicial, preço de R$180,00. Seria o melhor jeito de ir pra
Argentina. Planejei passar em Buenos Aires e depois Bariloche. Em seguida iria
acampando pelos lagos da região. Muitos locais eu já conhecia, quando fui de
bicicleta e sabia onde havia camping e o tipo. Se possível atravessaria para o
Chile e ficaria um tempo lá, na região dos lagos. Talvez encontrasse meu amigo Ike
que estava por lá.
Decidi ir
de Londrina para Foz do Iguaçu. Queria rever um cara o qual tive uma história
no passado e queainda meu coração
batia, apesar de lento. O passado ficou para trás e parti para Puerto Iguaçu
com o coração mais tranqüilo e livre. Comprei passagem de Puerto Iguaçu a
Buenos Aires por $185 (pesos). Tinha mais em conta até por $150, mas fiquei com
receio de não ter passagem e comprei no primeiro guichê que passei. Minha
mochila estava pesada, quase 18 kg fora a pequena que levava na frente. Para o
meu peso e estatura era bem difícil de carregá-la.
Parti às
11h30min horas e cheguei a Buenos Aires as 05h30min da manha em pleno dia 31 de
dezembro! Fiquei esperando as horas passarem para eu poder ligar para minha
amiga que lá se encontrava. Quando chegava perto das oito da manha liguei pra
Marisa, ela estava acordada aguardando minha ligação. Super atenciosa me disse
como chegaria até o bairro que estava, poderia ir de táxi ou de ônibus
(transporte coletivo). Fiquei pensando... Se quero rodar o mundo de forma
alternativa preciso saber me movimentar em cidades que não conheço. Peguei o
ônibus e deu tudo certo!
Encontro
com Marisa foi gratificante, ela é como se fosse minha irmã, brincamos dizendo
que somos irmãs de alma. Tomamos um café e ela decidiu me levar par a casas de
seus pais que residem ali próximo em Zarate.Aceitei!
Nessa
viagem aceitava tudo que me ofertavam, engraçado, geralmente o meu excesso de
educação não permite eu falar sim com tanta rapidez, mas nesses 15 dias eu estava
aberta para as possibilidades. Que isso me traga o desejo de sempre me manter
assim.
Fiquei o
dia 31 com a família de Marisa, conheci seus pais, seus tios e primos. São
maravilhosos! Descobri com a família de Marisa que a partir desse ano o ensino
de língua portuguesa nas escolasda
Argentina será obrigatório e que professor ganha muito mais que no Brasil.
No dia 01 de janeiro de 2009 partia para
Bariloche, cidade que eu particularmente gosto muito. Bariloche possui uma
energia singular. Paguei na passagem os salgados $247, geralmente não passa de
$200. Também, fui viajar em pleno dia 01de janeiro!
Dia 02 de
janeiro, próximo das 10 da manha chego a Bariloche. Um fuso a menos que Brasil.
Vou direto ao Camping La Selva Negra, que eu já conhecia. Cheguei lá e o valor
estava $30! Super salgado, eu havia pagado anteriormente $10. Como subiram os
preços na Argentina. Como iria ficar dois dias ali, ele me fez por $27. Deixei
minhas coisas no camping e fui para o centro da cidade procurar o Hotel
Flamingo onde estavam hospedados dois amigos, a Adriana e Junior. Não os
encontrei, uma pena.
Dia 03 de
janeiro resolvi subir o Cerro Otto de teleférico. Paguei $50 e gostei da vista
lá de cima. Fiz umas caminhadas até algumas elevações ali por perto. Aproveitei
e fui até o centro de Bariloche conhecer o museu Patagônio que da outra vez não
tinha ido visitar.
Dia
seguinte acordei cedo e parti para o Lago Vilarino de ônibus. Paguei $24 pela
empresa Albus.Que saudades desse
lugar! Tinha passado por ali de bike e não tinha acampado ali. Dessa vez iria
acampar! É um dos locais que existe camping livre. Nada se paga para ficar ali.
Famílias costumam ficar nesses campings livres dentro dos parques nacionais,
talvez pelo custo que é zero. O tempo começou a mudar e ventava muito. A
maioria das pessoas que acampam ali quebra galhos das árvores, até toras
inteiras para fazer fogo. Não há nenhum controle por ali disso, pelo menos eu
não vi. Então eu tinha que encontrar um lugar que a fumaça não pegava em mim. A
única opção era ficar na beira, próximo ao lago e ali a sensação térmica era
pior. O vento forte me fez ficar escondida dentro da barraca que nem um tatu! O
casal vizinho da minha barraca me convidou para jantar com eles, mas eu já
havia jantado e acabei recusando.
As famílias
ali no camping levavam suas varinhas de pescar e conseguiam se alimentar com
deliciosas trutas! Vi também muitos cicloturistas com vara de pescar. Descobri
que preciso saber pescar e limpar peixe!
No dia
seguinte amanheceu pior, mais frio, mais vento e uma garoa fina gelada. Todas
as roupas que eu tinha, coloquei! Fiquei meio que escondida, quase não sai da
barraca. O tédio veio, mas comecei a despistá-lo com projetos da minha vida,
sonhos, pesquisa e mudanças que desejo que ocorram neste ano de 2009. Ficava na
verdade, me entretendo com meus próprios pensamentos.
No outro
dia, continuava vento e frio, fui para estrada esperar o ônibus, queria ir para
San Martin de Los Andes e de lá pegar a estrada que fosse para as fontes
termais, Parque Nacional Lanin e Vila Rica.
O ônibus
demorou a passar e eu estava quase congelando na estrada, devido ao vento que
soprava gelado. Cheguei a San Martin e fiquei meio que frustrada, tudo muito
caro, e não tinha ônibus que me levasse onde eu queira, somente agencia de
turismo e daí o preço nada baixo. Senti uma falta danada da bicicleta. A
bicicleta me deixa livre. Paciência pensei, vim de mochila e agora aguento as
consequencias. Experiência Claudia, experiência!
Achei um camping na cidade, o ACA paguei $30.
O camping não era gracioso, um meio típico brasileiro. A manhã seguinte surgiu
linda! Céu sem nuvens, um calor gostoso e então decidi que antes de ir pro
Chile deveria tomar um belo banho de lago. Voltei pela rota dos lagos e desci
no lago Espejo Grande, outro local com camping livre. Cheguei cedo e deu tempo
para eu tomar vários banhos no lago e sol, curti mesmo. O problema que nesse
camping o espaço para colocar as barracas era pequeno e tinha bastante gente,
então tinha barulho, não foi uma experiência muito boa.
No outro
dia resolvo voltar para Bariloche para pegar ônibus até Puerto Montt que de lá
era mais barato. Retornei então para o camping La Selva Negra. Cheguei e já
tinha subido a diária para $33! Acabei pagando o preço antigo, porque já tinha
estado lá alguns dias antes. Não sei se é por causa da temporada ou a crise que
fizeram os preços saltarem desse jeito. Achei a Argentina um tanto cara nesses
dias.
No outro
dia cedo estava eu indo para Puerto Montt, deixei a mochila cargueira no guarda
volumes e fui só com a mochila de ataque. Pensava em só ir lá conhecer a
cidade, dormir e retornar, porque o dinheiro que eu tinha dava para comprar a
barraca que desejava e dormiria bem. Comprei a passagem de volta para Bariloche
e também já deixei comprada a passagem de Bariloche a Buenos Aires que paguei
mais barato que na ida, $196. Deixei um dinheiro guardado em Bariloche e fui
com o suficiente, pelo menos eu pensava!
Senti já
dentro do ônibus o clima de descontração do povo que vai para o Chile. Só tinha
eu de brasileira e tinha de tudo ali, colombiano, francês, inglês, chileno,
argentino, alemão. Que loucura e que lindo que é! Ficava pensando... Nossa o
Alfredo, meu amigo, tem que vivenciar isso. Na fronteira da Argentina com o
Chile houve uma longa espera, tinha muito movimento e demorou muito para
atravessarmos. Não pode ingressar com alimentos frescos no Chile, então é bem
demorado. Cheguei perto da imigração chilena, os guardas perguntaram quem é a
brasileira que estava ali. Me identifiquei e um deles me disse que tinha muito
apreço pelo Brasil, que ele gostava muito dos brasileiros. Fiquei bem feliz e
agradeci. Depois ele começou a falar de futebol, do Dunga e começaram a rir.
Dizendo que o Brasil tinha perdido pro Chile que eles iam ganhar novamente. Eu
ali só rindo porque não sabia nada de futebol e muito menos do tal jogo que
eles estavam falando. Vou ter que tomar umas aulas com a Laureci. Descobri que
ir para a América do Sul sem saber da historia do futebol não é legal. Futebol
também é cultura!
Atrasou
muito a viagem e eu precisava encontrar a loja aberta para comprar a barraca e
trocar os reais (meu grande erro). Cheguei tarde em Puerto Montt, já passava
das 19h30min horas e na manha seguinte eu já tinha comprado a passagem para
Bariloche e também para Buenos Aires. Não tinha como desmarcar tudo. Saí que
nem louca para trocar os reais por peso chileno. Um chileno atencioso, Andréas,
dentro do ônibus já havia me dado às dicas de onde ficava as casa de cambio e
também a loja.
Dentro do
terminal de ônibus havia uma casa de cambio, mas reais eles não aceitavam. Fui
caminhando pelas ruas da cidade apreciando a beleza e no desespero de encontrar
uma casa de cambio, rodei e achei uma que pagou muito mal pelos meus reais,
super desvalorizou. Perdi dinheiro...
Já com os pesos
chilenos em mãos fui atrás da loja, rodei, rodei e achei. O moço da loja,
atende muito mal, nem abriu a barraca pra eu ver. Queria comprar uma Ferrino,
mas não tinha e acabei comprando uma Marmot. Ele me deu desconto à vista e daí
pensei o quanto eu sou atenciosa com os meus clientes. Jamais vendo uma barraca
sem abrir e sem mostrar como funciona, a não ser que o cliente já saiba e
esteja commuita pressa. Fiquei triste
com o péssimo atendimento da loja, mas feliz porque comprei a tal barraca. Em
Puerto Montt os preços dos equipamentos são mais em conta, se passar por lá,
compre!
Sobraram 4mil pesos chilenos,
perguntei se esse dinheiro dava para dormir, eles me disseram que não, mas dava
para se alimentar. Em reais dava 16 reais, nem no Brasil você consegue
pernoitar com esse valor!!
Voltei pra
rodoviária, já estava começando escurecer, eram 22h00min. Ia me ajeitar num
banco qualquer ali dentro e esperar o dia amanhecer e partir feliz da vida. Não
estava com fome. Eis que de repente uma moça surgiu do nada na minha frente
perguntando se eu queria hospedagem, brinquei com ela dizendo que até queria,
mas tinha pouco dinheiro. Ela me perguntou quanto tinha e eu falei. Ela me
disse que nao dava para hospedar com aquele dinheiro. Eu já sabia... Tinha uns
trocadilhos em peso argentino, uns 12 pesos. Ela trocou pra mim e na soma dava
cinco mil pesos, o que valia pra nós 20 reais. Eu disse pra moça que se chamava
Nelda que ia ficar dormir na rodoviária, eu estava tranqüila, mas ela me
alertou que ali fechava a meia noite e todo mundo ficaria pra fora, seria
perigoso me roubarem. O lugar era meio sinistro mesmo, porto... Daí ela tentou
ligar para uma amiga que tinha casa que poderia me hospedar por essa quantia.
Nelda tão gentil me levou até a casa de sua amiga e dormir lá no quarto da
filha do casal. Me senti em casa e fiquei imensamente grata .
Na manha
seguinte estava embarcando novamente para a Argentina com destino Bariloche e
Buenos Aires. Vi que o terreno é plano e que pedalar por ali é fácil. Não
queria voltar para casa, para o Brasil, mas tava sem grana,.era necessário
retornar. Cheguei a Buenos Aires e já consegui um ônibus para Puerto Iguaçu,
paguei $200 num cama executivo, muito bom! Já havia dias que não tomava banho,
estava me sentindo muito suja. Gosto do povo argentino, eles não ligam muito
para aparência. Provavelmente valorizam outras coisas.
Cheguei a
Foz do Iguaçu e fui logo pagar para tomar uma ducha, R$6,00. Liguei para minha
mãe e perguntei se o dinheiro que eu estava para receber veio e ela me disse
que sim. Resolvi não voltar para casa, iria tentar sacar a grana e adentrar
pelo Paraguai, até Assunção pelo menos. Cheguei ao banco e não consegui sacar o
dinheiro. Puxa, que pena, fui pra Cidade de Leste, comprei umas bugigangas e
voltei. Peguei o ônibus para Londrina já noite.
Já
confortavelmente dentro do ônibus, observei a entrada de um moço alto e bem
diferente, um tanto exótico. Depois de ser gentil comigo por abrir a janela do
banheiro veio sentar do meu lado. Conversa super agradável que ficamos a viagem
toda acordados. É tão bom quando as pessoas não chegam perguntando aqueles
chavões tipo, o que você faz. O rapaz, Daniel, me disse que cada um traz
consigo o seu mundo, e que ao conversarmos com outras pessoas a gente entra no
mundo do outro e acaba conhecendo vários mundos. Sábio esse menino, sábio.
Minha viagem estava fechando de forma harmoniosa e eu feliz!
Cheguei a
Londrina exatamente no dia certo, pois era o dia de escolha de vagas no estado,
eu não poderia perder. Coincidência?
Relato de
Cláudia Melatti/Cacau
Empresa de
ônibus que faz Cambe a Buenos Aires-
Crucero Del Norte
Email de
Nelda que possui hospedagem familiar em Puerto Montt :
Camping La
Selva Negra - Bariloche fone:(02944)441013
Empresa de
Onibus que faz Bariloche a Puerto Montt : Trans-Choapa, $80 Fone: (02944)422288